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ARQUIVO - No Mundo dos Famosos
 


Entrevista Especial de Ano Novo com MILTON GONÇALVES

 

A última “Entrevista Especial” de 2014 é com um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos. Ele já deu vida a inúmeros personagens marcantes, tanto na TV, quanto no Cinema ou no Teatro... Em tudo ele faz fica sua inconfundível marca de sucesso. O entrevistado de hoje do “No Mundo dos Famosos” é o querido e magistral ator MILTON GONÇALVES.

“Jéfferson, eu sempre falo que só não fui comunista na minha vida porque sempre acreditei e tive fé em Deus e nos orixás (risos)...”

(Milton Gonçalves)

Jéfferson Balbino: Como surgiu seu interesse pela carreira de ator?

Milton Gonçalves: Jéfferson, eu diria pra você que meu interesse pela carreira de ator surgiu desde criança, pois eu já era exibicionista. E como a minha mãe me estimulava muito para ir ao Cinema eu assistia os filmes e, obviamente, depois tentava reproduzi-los dentro da minha extrema pobreza, como milhares de pessoas viviam. Então eu tentava recriar aqueles personagens que eu via na tela no cinema como se fora eu, fazia isso até para adormecer um pouco a frustração, o não conhecimento, a ignorância absoluta. Eu acho que isso acontece com a grande maioria dos atores que não têm meios e modos de uma sobrevivência decente.

Jéfferson Balbino: Então foi a sua mãe que despertou seu talento como ator?

Milton Gonçalves: Sim... Mas um dia quando eu disse a ela que queria ser ator e não outra coisa ela até entornou o caldo (risos), porém, depois ela passou a gostar e entender que o ator tem uma preocupação com a cultura e com a questão politico-ideológico... Antes de ser ator eu também fui gráfico, fui aprendiz de farmacêutico, enfim fui uma porção de coisas... E a maioria dos patrões que eu tive eram politizados, e me levavam a entender umas questões que era até então profanos (risos). Jéfferson, eu sempre falo que só não fui comunista na minha vida porque sempre acreditei e tive fé em Deus e nos orixás (risos)...

Jéfferson Balbino: Você participou do elenco de uma das primeiras telenovelas produzidas pela TV Globo que foi “Padre Tião” (1965).

Milton Gonçalves: Eu estou na TV Globo desde janeiro de 1965 e eu vinha de um resultado de um grupo de Teatro da qual me criei que foi o Teatro de Arena de São Paulo e foi quando eu acertei os meus sonhos, os meus desejos e o meu futuro.

Jéfferson Balbino: E como era o Teatro de Arena nessa época?

Milton Gonçalves: Era um misto de comunistas e socialistas onde todos eles eram de esquerda política no sentido de ver o homem como um ser respeitável e não parte de um lixo.

Jéfferson Balbino: Nessa época a televisão ainda não podia contar com os atuais recursos tecnológicos. Como era atuar na TV nessa época, era difícil?

Milton Gonçalves: Como especialmente nessa época a TV Globo estava em seu inicio, obviamente, foi difícil. Mas o doutor Roberto [Marinho] fez tudo certo, como um prédio especifico lá no Jardim Botânico para ser televisão com 10 estúdios, um auditório, vários escritórios, e por isso depois se tornou tudo viável para os profissionais que ali trabalharam e ate então não tinha nenhuma empresa de televisão que tinha construído um prédio para essa finalidade. Nessa época o que tinha de melhor em equipamento era em preto-e-branco, vim do Teatro e por convite do Otávio Graça Melo, muitas pessoas não falam dele, mas ele foi o primeiro organizador do elenco da Globo, e para identificar o tempo e o espaço era o sogro da Marília Pêra e lá o Otávio me chamou só que naquele tempo a televisão não tinha essa importância e só foi a ter tal importância a partir do momento que o doutor Roberto Marinho formou com seriedade a Rede Globo, é claro que quando você vive numa sociedade você pode ser acusado de muitas coisas, mas você só vai saber quem realmente é convivendo com a pessoa, por exemplo, eu quando era muito jovem houve um momento da minha vida que eu trabalhava na livraria Elum em São Paulo e lá eu encontrei todos os comunistas, isso em 1947, o Guido Del Picchi entre outros que me “obrigavam” a ler certas coisas, como o Manifesto... Mas como te disse como poderia ser comunista acreditando em Deus e nos orixás? (risos). É óbvio que em certos momentos eu acredito nisso ou naquilo, mas lá dentro do meu coração está à chamada formação religiosa. Mas voltando a falar da Globo o doutor Roberto me deu todas as condições necessárias para eu fazer televisão, pois tinha máquinas, meios e modos para fazer, o salário era e sempre será em dia.

Jéfferson Balbino: Seu salário na Globo nunca atrasou então?

Milton Gonçalves: Eu estou lá na Globo desde1965 e que eu me lembre o salario só atrasou uma única vez. Se o seu salário cai no dia 31, no dia 30 você pode gastar seu cheque que ele será honrado, pois é uma empresa séria. Não tenho o que falar mal, possa ser que tenha lá pessoas que tentem desvirtuar, mas a empresa em si ainda hoje com o Roberto Irineu, filho do doutor Roberto Marinho, com os irmãos dele que tomam contam são honestos ao trabalhador e eu falo isso com toda a unção, eles respeitam o trabalhador e não importam com a categoria, lá não tem salario mínimo tem sempre salario acima e isso é importante.

Jéfferson Balbino: Voltando a falar de teledramaturgia, você deu um show de interpretação na novela “A Cabana do Pai Tomás” (TV Globo/1969) que era uma trama protagonizada por Sérgio Cardoso, um ator branco que se pintava de negro. Você que é considerado um militante da causa negra se desagradou com o fato de não ser um ator nego a protagonizar essa história?

 

Milton Gonçalves: Jéfferson, eu não sou tão militante da causa negra como muita gente acha. Durante essa novela eu quase fui mandado embora não devido à gerência do doutor Roberto, mas porque um diretor me chamou para eu ir pra São Paulo fazer programa de humor, porque eu não gostei de ver o Sérgio Cardoso que já vinha de uns 5 trabalhos seguidos tendo que se maquiar e por rolha no nariz para fazer papel de negro, sendo que havia muito ator negro da idade dele precisando de emprego. Eu nunca tive nada contra o Sérgio Cardoso e quero deixar bem claro isso, o que me deixava revoltado era saber que num país onde 52% da população era de origem negra, embora ninguém quisesse ser negro, mas essa ‘rusga’ não se deu por conta da direção do doutor Roberto Marinho, mas por aqueles que achavam que culturalmente não deveria ser assim, e esse diretor me falou que se eu não saísse da novela pra ir pro humor eu não serviria para trabalhar na TV Globo, obviamente, meu filho mais velho, o Mauricio, era pequeno e eu cheguei em casa tremendo porque corria sério risco de perder o meu emprego e a minha mulher também ficou preocupado, e a minha cunhada, a Ailéma se propôs em me ajudar, e depois o Lúcio Mauro me procurou junto com um diretor para me convencer a ir fazer o trabalho em São Paulo para não ficar desempregado e eu recusei, enfim depois de muito tempo que eu fui saber que o Walter Clark deu um ‘pito’ neles todos e que não deixou me mandarem embora, pois daí se caracterizava o preconceito e o racismo.



Escrito por No Mundo dos Famosos às 21h54
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Entrevista Especial de Ano Novo com MILTON GONÇALVES

Jéfferson Balbino: Ou seja, você acabou sendo vítima de racismo e lutou contra isso, né?

Milton Gonçalves: Eu acho que a luta não deve ser contra o racismo, mas contra a posição politica ou da oposição política, ética ou moral são os embates que devemos ter ou a gente encara ou não encara.

Jéfferson Balbino: Agora a pouco você me disse que não e tão militante da causa negra, por quê?

Milton Gonçalves: Eu não tenho nada contra movimentos negros, a minha visão e de que eu sou tão brasileiro como o loiro dos olhos azuis, eu sou um brasileiro da mesma categoria que todos, porém, sou negro e descente de africanos e procuro da melhor maneira possível defender as minhas origens.

Jéfferson Balbino: Você atuou em diversas novelas escritas pelo casal Dias Gomes e Janete Clair como: “Véu de Noiva” (TV Globo/1969), “Irmãos Coragem” (TV Globo/1970), “Bandeira 2” (TV Globo/1971), “O Bem Amado” (TV Globo/1973), “Pecado Capital” (TV Globo/1975), “Roque Santeiro” (TV Globo/1985), “Mandala” (TV Globo/1987) e “Araponga” (TV Globo/1990). Como foi trabalhar com esses magistrais novelistas?

Milton Gonçalves: A Janete Clair e o Dias Gomes são minhas paixões porque são pessoas que a gente pensava mais ou menos juntos. O Dias Gomes não tanto, mas a Janete Clair era meio como eu ‘comunicista’ na igreja (risos), ela foi uma pessoa maravilhosa que escreveu “Irmãos Coragem” que é uma obra-prima da qual eu dirigi junto com o Daniel Filho. Além de alguns programas humorísticos eu também dirigi novelas, como diretor-assistente. Eu tenho plena liberdade e respeito na Globo, tenho liberdade de dizer o que eu acho sobre o trabalho que vou fazer e isso é muito bom.

Jéfferson Balbino: Na novela “O Bem Amado” (TV Globo/1973) você deu vida ao Zelão das Asas que foi um marco na sua carreira. O que esse trabalho representa na sua carreira?

Milton Gonçalves: Foi muito bom, foi à primeira novela a cores e era eu que iria dirigir. O Zelão é um homem de fé ele é aquilo que eu acredito em Deus e nos orixás.

Jéfferson Balbino: E como você compôs esse inesquecível personagem?

Milton Gonçalves: Para compor o Zelão eu sempre dizia para mim mesmo; “Eu sou um ator brasileiro, negro e descendente de africanos, acredito em Deus e nos orixás e porque eu não posso voar?”. É claro que tem toda uma questão cultural e intelectual por trás dele, pois não era só o voo que era importante, mas o alcance da vitória, era você conseguir realizar aquilo que você tem fé mesmo que lhe custe a vida e isso é muito difícil de encontrar hoje em dia, pois há um materialismo muito cruel e brutal, mas quando bate no coração acreditam em Deus.

Jéfferson Balbino: Foi difícil gravar aquela cena que o Zelão sobrevoa a cidade com as suas asas?

Milton Gonçalves: Foi sim Jéfferson...

Jéfferson Balbino: Por quê?

Milton Gonçalves: Porque era o fim da novela... Foi maravilhoso, era ainda a cena final da novela. E quando você faz novela ou você se apaixona por ela, como foi o caso desse trabalho, ou você não vê a hora que o trabalho acaba. E “O Bem Amado” foi uma novela importante para todos nos e por isso ninguém queria que acabasse.

Jéfferson Balbino: Existe dois personagens que você interpretou que ficaram cravados no imaginário popular que são o Nonô das Gringas, da novela “O Espigão” (TV Globo/19---) e o Sete Voltas da versão original da novela “Gabriela” (TV Globo/19---). Que lembranças você tem desses inesquecíveis personagens?

Milton Gonçalves: Faz tanto tempo que fiz esses personagens e como a minha cabeça já está pior não lembro com tanta exatidão, mas tenho certeza que eles estão lá dormindo no meu coração e se eu cutucá-los talvez eu os veja renascer.

Jéfferson Balbino: Tem um fato interessante na sua carreira que é o fato de você ter interpretado o mesmo personagem nas duas versões das novelas “Saramandaia” (TV Globo/1976 e 2013) e “Sinhá Moça” (TV Globo/1986 e 2006). Como foi essa experiência? Você consegue identificar qual foi a versão que você mais gostou de interpretar esses personagens?

Milton Gonçalves: Olha, “Sinhá Moça” eu fiz duas vezes o Pai José... Eu acho que existe por aí muitos ‘pais josés’ que são aqueles que tem fé e crê em Deus e nos orixás. Gostei muito de fazer esses personagens tanto na versão original como no remake.

Jéfferson Balbino: O que lhe é mais gratificante na carreira de ator?

Milton Gonçalves: Eu ser honesto na minha preposição de ator, ser respeitado e ter conseguido, obviamente como espetáculo, de passar uma mensagem para o meu país de norte a sul e de leste a oeste. A minha carreira propiciou eu conhecer várias partes do mundo, me propiciou ir pra África, pro Oriente, para as Américas do Norte, do Sul e Central. Propiciou-me levar uma mensagem diferenciada...

Jéfferson Balbino: Querido, foi uma honra te você como entrevistado aqui “No Mundo dos Famosos”, obrigado por tudo que você fez em prol da Cultura e da Arte brasileira. Parabéns pela brilhante carreira e muito sucesso e saúde nesse novo ano que se inicia. Abraços e um Feliz 2015!

 

Milton Gonçalves: Sabe Jéfferson, hoje eu estou um pouco emotivo, senti muita saudades de amigos leais que já se foram e que me ensinaram muito e com essa entrevista que você me fez Jéfferson relembrei de todos eles e tocou muito meu coração. Meu muito obrigado a você por ter me propiciado isso. Um abraço e um Feliz Ano Novo para você e toda sua família. 



Escrito por No Mundo dos Famosos às 21h54
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Ainda Hoje: Entrevista Especial de Ano Novo com MILTON GONÇALVES



Escrito por No Mundo dos Famosos às 21h53
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